Monday, March 26, 2007

Sob os Candeeiros

Parque, cercado por prédios, iluminado por candeeiros eléctricos.

Observa, aparece.
O caminho e as luzes.
Vermes eloquentes,
Banidos pela claridade.

Fadas etéreas
Fundidas com metal,
Incandescência deslumbrante
Ignorada pelos iluminados
Cercados por betão.

Os iluminófilos,
Esses, sedentos por calor,
Acompanham-se de escadas
Limitadas por natureza,
Frágeis e Icarianas,
Fundidas em condescendência.


6:00 A.M. 25/03/2007

Thursday, January 25, 2007

...por aquilo que nunca saberemos.

Falta um pouco de maturidade, sanidade e serenidade.

A ambição, a de querer responder a questões que muito provavelmente nunca ninguém o irá conseguir fazer com total conhecimento de causa, essa não me perturba, apenas chateia.

No entanto incomoda-me ter a noção de que o mais certo é toda a humanidade persistir, procriar e, também, provavelmente, declinar sem nunca ser capaz de dar resposta a essas mesmas questões.

Pode ser que não tenham mesmo resposta. Pode ser que sejam apenas mais um dos caprichos da mente humana, mais um daqueles que nos dão uma certa vantagem evolutiva e nos fazem prosperar (esperemos que não extinguir) como espécie.

O que é facto é que temos conseguido, de maneira mais ou menos barbara, criar coisas, crianças (também fazê-las crescer, convém), até mesmo alcançar algum conhecimento mais nobre ou expressar alguns sentimentos mais sublimes, continuando sem dar resposta a tais questões que tantos filósofos levantaram. Às vezes sou tentado a pensar que tudo isto é uma questão de “juventude”, pois a sociedade geral (predominantemente adulta, digo eu...) não parece de facto minimamente interessada em responder ao que tenho vindo a falar, e já agora, que tais filósofos são apenas uma minoria presa a devaneios (infantis, se quisermos continuar em tal maré).

Mas como tenho dito, a vida prática da sociedade não parece ser minimamente perturbada pela ignorância, e se calhar não deveria também eu o ser. (Calma, eu tinha dito que não estava perturbado... chutemos então a coerência p’rás ortigas!) Isto de viver à espera de conseguir miraculosamente encontrar algures uma Resposta não parece muito viável a longo prazo... Mas adiemos então por mais um pouco uma viragem no paradigma de comportamento e tenhamos mais um pouco de esperança. Afinal sempre podemos pensar sobre o Amor, sempre é alguma coisa. No entanto não nos podemos esquecer de considerar a possibilidade de Ele só existir porque nos faz ter criancinhas (não se esqueçam da vantagem evolutiva que isso representa!).


Despeço-me, vou estudar para depois conseguir criar coisas, com sorte algum conhecimento mais nobre ou melhorar a capacidade de exprimir sentimentos, escolha-se uma das opções consoante aquilo que estude.


Beijos e abraços (os respectivos aos destinatários socialmente impostos).

P.S.- Pode-se ler “crianças” com um significado mais perto de “família”, mas por leviandade adoptou-se o primeiro termo. Perdoem-me mas não tenho cabeça nem tempo para reler isto tudo...

Tuesday, October 10, 2006

Theo Jansen - "Kinetic Sculpture"



Anúncio produzido pela agência Ireland/Davenport da África do Sul para a BMW, com esculturas de Theo Jansen.

P.S.- um obrigado aos FísicosLX pela divulgação do video.

bullshit

Palavras embebidas em retórica, pretensiosas no sentido cuja sua própria estética abandonou. Pronuncios ambiciosos por genuinidade, tentando cobrir com neblina o vazio que por trás deles se esconde.
Como pode a linguagem criar a ilusão de beleza em sentimentos tão insípidos, mas ao mesmo tempo ser tão insuficiente para sentimentos tão genuínos.
Por todo o lado presenciei este abuso estético, esta retórica pretensiosa por um sentido sublime inexistente na fonte da sua verbalização.

P.S.- Ou simplesmente: “odeio frases feitas e coisas ditas da boca p’ra fora” =P

Thursday, September 21, 2006

Algo mais...

Sons embebidos na escuridão da minha sala, atingem-me de forma a despertarem emoções que são indefinidas, em tudo como as certezas que por momentos julgamos ter.

Sons que ganharam um respeito e um apreço especiais, pois de alguma forma significam mais do que meras palavras tentando transpor as barreiras de uma linguagem que insiste em ser insuficiente para partilhar tudo o que vai dentro de nós. Significam mais do que meras melodias que nos preenchem os sentidos nas alturas em que o silencio nos incomoda. Significam mais do que um mero obie ou profissão. De alguma forma parecem ser imortais e de certo modo pertencem a um mudo imaterial, tal como o nosso sistema nervoso cria algo como a nossa mente, os instrumentos gravados naquele CD criam uma entidade muito além das ondas sonoras traduzidas pela aparelhagem, concretizam ideias e inovações, sentimentos e imagens.




P.S.-O concerto de Paatos no Santiago D’Alquimista merece uma referência aqui neste blog. Foi uma experiência memorável, preenchendo as expectativas reservadas a essa noite. Essa experiência era algo que queria ter vivido convosco, sei que seria algo que cada uma sentiria de sua forma, todas elas louváveis.

Thursday, August 10, 2006

Coisitas com piada...

Pá, gosto mesmo muito desta letra...E da banda, diga-se de passagem... É daquelas que nos acompanham nas noites longas passadas em claro, nas alturas em que só queremos estar sozinhos e esperar, pensar...
Lembrei-me disto no outro dia quando vi o "2001: Odisseia no Espaço", não que tenha muito a ver, digamos mais que é uma visão um bocado para o "Huxleyano" da humanidade:p

In the year twentyfive
twentyfive if man is still alive

If woman can survive they may find.
In the year thirtyfive thirtyfive
Ain't gonna need to tell the truth tell no lies

Ev'rything you think do and say is in the pill you took today.
In the year fortyfive fortyfive
You ain't gonna need your teeth won't need your eyes

You won't find a thing to chew
nobody's gonna look at you.
In the year fiftyfive fiftyfive your arms are hangin' limp at you side

Your legs got nothin' to do
some machines doin' that for you.
In the year sixtyfive sixtyfive
Ain't gonna need no husband won't need no wife

You'll pick your son
pick your daughter too
From the bottom of a long glass tube.
In the year seventyfiveten
If God's a-coming he oughta make it by then

Maybe he'll look around himself and say:
Guess it's time for the judgement day.
In the year eightyfiveten God is gonna shake his mighty head

He'll either say I'm pleased where man has been
Or tear it down and start again.
In the year ninetyfive ninetyfive
I'm kind a wond'rin' if man is gonna be alive

He's taken everything this old earth can give
And he ain't put back nothin'.
Now it's been tenthousand years
man has cried a billion tears
For what he never knew - now man's reign is through.
But through eternal night the twinkling of starlight
So very far away - maybe it's only yesterday.
In the year twentyfive twentyfive if man is still alive
In the year thirtyfive thirtyfive . . .

Fields of The Nephilim:
"In the year 2525"

Wednesday, August 02, 2006

Aquilo que ainda me perturba

Há coisa de dois anos, disseram-me que tinha sede de infinito; que queria sempre agarrar aquele "algo mais", enfim, que tinha sede de viver.
Acredito que isso fosse verdade na altura; ainda me lembro das minhas ambições surrealistas, de tudo o que queria alcançar, tudo o que sabia poder agarrar, ainda que no fundo soubesse que não podia... Ora o tempo passa e as pessoas crescem; abrem os olhos para o que são e o que querem: para mim, isso acabou; sei o que sou e o que serei e isso chega-me, não quero mexer mais no assunto...
É possível que tenha sido por ter sonhado, por ter querido um dia, que me apaixonei por ti; pela tua vida, o teu calor, a tua paixão pelo mundo, pelas pessoas, o teu fascínio por tudo o que é novo, por tudo o que existe, tudo o que não conheces, a tua sede de vida, de calor, aquela inesgotável e quase infantil necessidade de viver... Ou talvez tenha sido por tudo o resto, esse mundo que há em ti, inesgotável, fogoso, esse TUDO...
A questão que se põe é que eu já não sou como tu, já não QUERO, resignei-me... Poderá, então o teu espírito cheio de vida, pleno de ímpeto sentir-se completo pelo meu, um deserto de conformismo e apatia, apenas aceso pela tua presença, pelo estímulo ocasional do convívio pontual e selecto ou pela exposição a uma qualquer forma de arte, daquela que não encontro em mim?
Um destes dias vais querer voar e acho que não te vou conseguir acompanhar...

Sunday, July 30, 2006

4:13 AM

Quatro da manha e ainda acordado. O infatigável relógio, as paredes escurecidas, o ecrã luminescente e tudo o resto que me rodeia, quase que absurdamente, trazem-me à mente a mesma imagem, o mesmo conceito, o mesmo sentimento, aquele que é escusado ser nomeado, pois seu nome pura e simplesmente é redutor, minguante, e de tanto uso, quase que soa consporcado.

Várias são as vezes que tal termo me surge na consciência, várias são as vezes que eu o considero inadequado. Tal capacidade de catalogação inerte na raça humana é embrutecedora. É como que decrever o gosto de uma refeição dizendo apenas se é doce, azeda, salgada ou amarga, ignorando toda a textura e aroma nela presente. É como que conduzir um julgamento tendo em conta apenas a etnia do acusado, ignorando por completo todo o contexto e toda a diversidade de provas e contraprovas apresentadas. É como que sentir uma música apenas pelas rimas nela prensentes e não prestar atenção a todas as linhas melódicas e rítmicas que a enriquecem.

Todo este conceito é muito mais do que o termo a ele subjacente. Até porque o termo pode não ter sempre o mesmo significado associado, e de modo algum apresentará sempre os mesmos contornos.

Tudo isto não passa de meras ideias confusas que me surgem juntamente com memórias que, de alguma forma, soam incoerentes, pois insistem em não revelar o que por trás delas se passa.

P.S.- Além disto, quero que precebas a necessidade de tal acto, não que sintas qualquer género de culpa ou arrependimento. Apenas quero que o consideres correcto, esquecendo por momentos essa admirável necessidade de autonomia e esse zelo pela comodidade dos que te rodeiam.

Friday, July 07, 2006

Que gênio-louco é você?





Faça você também
Que gênio-louco é você?

Uma criação de
O Mundo Insano da Abyssinia



lol... é giro exprimentem :P

Tuesday, June 27, 2006

Inconstante

Um sentimento inabalado pela falta de esperança. Uma felicidade desprezada em nome de uma busca por sinceridade.
Consumido pelo desconforto da impossibilidade de te ter perto, sinto uma incapacidade em clarificar os meus pensamentos.
O que te vai na mente inquieta-me, todas as tuas preocupações alimentam um subconsciente que insiste em trazer ao pensamento a constante duvida de um futuro incerto.
A fadiga e o cansaço incitam ao abandono de toda esta inquietude, mas a necessidade de um caminho que me guie faz com que não desista da genuinidade deste sentimento.

Saturday, June 03, 2006

Ao atravessar o portão...

Porque o gosto do café não foi suficiente para me satisfazer a curiosidade sobre o que te ia na mente.

Porque aquele seria o momento que te desligaria dos que o tinham imediatamente precedido, ou pelo menos assim o pensaste...

Porque quem olha para trás é porque ou algo procura ou algo duvida...

Porque, embora breve, a procura ou a dúvida existiram, tal como a vivência de algo inesperado, tal como o sentimento de algo desconhecido, tal como o questionamento de algo pressupostamente assente...

Porque algo ocupou a tua mente naquele momento tal como nos momentos antecessores.

Porque o ritmo do teu reticente andar ter-te-ia conduzido ali mais cedo não fosse algo te ter retido dentro de um perímetro que nos é desconhecido.

Porque todas as minhas incoerentes especulações não me levam a lado algum.

P.S.- deixaste a tua água ao lado do monitor... está meio vazia... revejo-me nela...
Os transístores ficam para a próxima... também não foram eles que me trouxeram cá...

Sunday, May 28, 2006

É tarde

É tarde, volto-me a sentar no mesmo sitio de sempre para ver se as palavras escorrem em concordância com o meu sentimento. Foram inúmeras as vezes que tal esforço fora inglório, mas a esperança de alcançar algo clarificante leva-me a tentá-lo outra vez.

É tarde... o sono e o cansaço actuam de forma estranha sobre os meus pensamentos. Relembro-me de momentos em que, estando ao pé de ti, cobardemente reprimi impulsos que me levariam para o desconhecido. Mesmo sabendo que aquele desconhecido era tudo o que procurava, nesse preciso momento algo instintivo impedia-me de me aproximar.

Esse instinto que nos leva a manter aquela tola distância social, o mesmo instinto que nos leva a não arriscar demasiado e que de certa forma permitiu que a raça humana chegasse onde chegou, neste momento parece-me absurdo...

Ainda espero por um momento em que um rasgo de insanidade, ou um simples vislumbre de receptividade, me leve a tentar aquilo que não tenho tido confiança para tentar.

Atento por uma quebra na realidade, que permita que a distância entre duas consciências se reduza ao infinitésimo, na tentativa de se tornarem uma só...

Saturday, May 13, 2006

"Weak and Powerless"

A notoriedade da sua discreta presença
e a unicidade da sua comum expressão...
A simplicidade da sua sublime descontracção
e o despojo da sua calorosa empatia,
inspiram e encaminham.

Mas a certeza da sua aparente indiferença
e o peso da sua imaterial ausência...
A incoerência da sua contextual reacção
e o sonho da sua real condição,
desconcertam e comprometem.


Foram algumas palavras que escrevi há pouco tempo, mas agora talvez digam mais do que dantes... É estranho como o ser humano tem uma predisposição para esconder (até certo ponto) os seus sentimentos... Talvez seja porque sentimentos sejam bichos estranhos, nos quais o pessoal não pode ter grandes confias...
abraço para todos e não se preocupem com as nossas fraquezas naturais, lol ;)

P.S.- o titulo é uma referencia a uma música de A Perfect Circle com o mesmo nome
(se o Heimdal sabe disto apanha um profundo desgosto), mas o que é facto é que eu gosto bastante e aconselho aos interessados os dois primeiros álbuns da Banda ("Mer de Noms" e "Thirteenth Step"(o terceiro ainda não me seduz :\)

Saturday, May 06, 2006

Estou cansado.

Estou cansado.
Em frente a um ecrã, a minha consciência apercebe-se de um universo de informações, mas nenhuma delas dá um rumo aos meus sentimentos.
Procuro desesperadamente por algo que me guie, alguma luz no interior do meu ser que dê um significado sustentável à vida que inexplicavelmente infecta todas as minhas entranhas.

As persianas estão corridas numa tentativa de adaptar a claridade do meu espaço com a luminosidade da minha mente. No meu estado de inconsciência procuro por música que se coadune de alguma forma com aquilo que sinto. Sento-me e escrevo.

Existiram momentos de revelação, em que toda a existência parecia naquele instante fazer sentido. Existiram períodos de conforto e conformismo que levaram os nossos pensamentos para dimensões diferentes daquela em que se encontra neste instante toda a minha preocupação. Mas o conformismo não inspirou, nem as revelações perduraram tempo suficiente para o inspirar, algum objectivo o qual eu possa adjectivar de Absoluto. Um objectivo que eu pudesse dizer que era meu e não de outro alguém. Um objectivo que perdurasse para além do futuro planeado.

Sempre tentei manter um discurso coerente ao longo dos últimos anos, no entanto repetidamente tenho falhado em tal ponto. A minha personalidade colide constantemente com certos pontos fulcrais das minhas opiniões “politico-ético-existencialistas”. De certa forma isso leva-me a duvidar de certas atitudes ou escolhas que tomo.

Não queria novamente vir a duvidar das minhas escolhas, não queria que me faltasse novamente a força ou a coragem para tomar a decisão correcta. Não sei se o que com que me confronto neste momento é a incapacidade de discernir o que é a decisão “correcta” ou o medo de a descobrir.

Vou abandonar as palavras e tentar encontrar nas notas de uma guitarra uma melhor forma de exprimir aquilo que me vai na alma, provavelmente o esforço será inglório, mas hei de sempre o tentar.


P.S.- Se alguém ler isto, não se preocupe, não estou deprimido, apenas preocupado!:P ;)

Sunday, April 23, 2006

Já nada é constante (...)


"Já nada é constante, nada é certo.
A memória prevalece sobre qualquer oportunidade de viver algo novo.
Valeu a pena? Certamente.
A experiência é o valor da vida.
Quanto mais intensa, maior a sua importância."

Wednesday, April 05, 2006

o peso das palavras

Amanhece um dia cinzento, desolador na paz que me isola... Parece que sou o único em quilómetros...
O fumo do cigarro confunde-se com a chuva que entra pela janela, enregelando os meus pensamentos, emaranhando-se nas vozes desesperadas que saem da aparelhagem, lá no fundo do meu quarto, abrigadas do frio e do vento que me tentam reconfortar... Será que vai ser sempre assim? Já saiste há algum tempo mas algo de ti permance. Assombra-me por insinuar que se pode desvanecer, que hoje possa ter sido a ultima vez. Sempre disse que o intenso não é sustentável, deve ser por isso que estas coisas acontecem: preenches o vazio e consigo sempre arrancar-te de mim, levando contigo sempre um bocado mais...
Não quero perder isto.

Sunday, August 07, 2005

Instintos doentios...

Está calor. Ao contrário do que é habitual, mantenho a porta do quarto aberta enquanto pesquiso errantemente sites de música na net; é que o meu quarto tem ar condicionado e o dos meus pais, que fica mesmo em frente da porta, não. Acabo de escolher um disco da minha pasta de mp3 quando o meu pai chega ao quarto e liga a televisão; a luz que emana intermitente da divisão antes sombria capta a minha atenção e dou por mim a olhar para a televisão enquanto o meu pai procura algo de interesse para ver. Passa alguns canais até que para na TVI, onde se transmite uma corrida de touros. Apenas por alguns segundos, é certo, apenas até o toureiro, no alto do seu elegante cavalo, espetar uma vez o touro, que se debate por momentos e se prepara para investir novamente. Seguem-se, depois, mais um rol de canais até que pára num desses de notícias, como é habitual...
O meu pai não gosta de touradas. Afinal, quem é que gosta?? Bem, a verdade é que elas existem, a verdade é que ele parou durante alguns segundos para ver o animal ser atacado e a verdade é que eu, minutos atrás tinha feito o mesmo quando procurava um filme para ver... Eu, que não tenho senão nojo pela actividade, que não percebo nem aceito o gosto pela mesma.
Dou por mim agora a pensar o porquê de parar para ver aquilo e a verdade é que o que estava a pensar na altura era algo do género "como se pode apreciar isto? É violento e cruel para além de ser sempre igual, etc" bem, aquilo que pensamos sempre que nos deparamos com aquele espectáculo:p mas não posso deixar de admitir que há em mim uma ponta, embora que ínfima, de fascínio mórbido, uma curiosidade doentia de assistir ao sofrimento do animal; algo que o nosso "eu" racional tenta suprimir mas que está sempre la... Parece que o meu pai também o tem, assim como todos os fans do "desporto" em questão...
A diferença entre quem tenta suprimir esse sentimento e quem o abraça é, suponho, apenas uma questão de valores morais; por mais que se diga que os animais são criados para aquilo e que vivem muito bem até serem toureados, isso não anula o facto de serem torturados antes de morrerem perante uma plateia entusiasta que celebra a sua dor com palmas e sorrisos satisfeitos...

Saturday, August 06, 2005

Ouvi "Black Dog" ao vivo!

As férias já vão a meio e eu nem dei por isso...
Após o final dos exames e a operação do meu pai, que nos apanhou mais ou menos de surpresa, os dias foram passados entre longas horas no nosso bar de eleição e as penosas aulas de código que se vão fazendo, sem grandes pressas; afinal, o tempo de longas horas de estudo e penosas cargas horárias está ainda para vir...
Depois veio o já habitual festival de verão(resolvemos instituir a tradição e ir a pelo menos 1 por ano:p), desta feita, Vilar de Mouros, como seria de esperar, olhando para o cartaz... Deixem que vos diga que, em termos de concertos, acho sinceramente que, desde que me lembro, esta foi a melhor edição deste histórico festival; o primeiro dia, com três nomes que muito me dizem desde ja ha algum tempo, foi, como era de esperar, muito bem passado; boa musica e boa companhia(aí reside a verdadeira essência do "espírito festivaleiro", conhece-se sempre alguém interessante!), no segundo e terceiro dia, há a destacar a excelente actuação(ok, nem todos partilham da minha opinião, mas EU GOSTEI:p) de Peter Murphy, o lendário ex-Bauhaus, a grande performance de Joss Stone, a quem dou todo o crédito de me ter cativado durante o concerto apesar da minha aversão quase patológica à musica(é preciso ser-se bom para fazer com que alguém que não aprecia o som se divirta no concerto, não acham?) e, finalmente, a algo deprimente prestação de um Joe Cocker que, já não possuindo as capacidades vocais de outros tempos, dá a ideia que está a mais no meio de uma banda de músicos de primeira categoria, sendo que estes conseguem, simultâneamente, manter o concerto interessante e evidenciar que o lendário vocalista de voz rouca já passou o prazo de validade...sad but true:p...
Posto isto, e por falar em veteranos; chegamos ao último dia... Às 3 da tarde, assim que abrem o recinto, la estamos nos, depois de pagarmos 36.50€ por duas doses de febras(raiva...ÓDIO!!), a caminhar para o palco secundário pela primeira vez(e no único dia que não havia nada que quisesse ver), para fazer tempo até às 17:00, quando nos dirigimos para o palco principal, não queriamos perder o lugar na primeira fila. Depois da actuação dos portugueses Kidnap e dos Wedding Present, foi a vez de Andy Barlow subir ao palco...Mas quem foi o génio que fez este cartaz?? Não que tenha alguma crítica a fazer à sonoridade da banda, mas não vejo como se encaixa nos gostos de fans de Rock progressivo ou de rock n'roll, só isso...
Finalmente, chegou o momento que tanto esperava; à minha frente, a poucos metros de mim, sobem ao palco nada mais, nada menos que Porcupine Tree! A banda de que tanto ja viram falar neste blog. O concerto, apesar de curto, foi uma explosão frenética de cor e emoção; algo de uma intensidade que só o progressivo - e o génio do Senhor Steven Wilson - podem transmitir!
"Intensidade"...pensei que não pudesse ficar mais intenso...pensei que não pudesse ficar melhor. Mas ficou! Assim que se ouvem os primeiros acordes de "No Quarter", faixa inicial do concerto de Robert PLant, sei que este vai ser especial. À emoção e intensidade dos PT, junta-se agora aquela adrenalina, o tão falado "power" do rock! Eheheh não consegui parar de sorrir durante o todo o concerto(sorriso esse, reconhecido com um gesto pelo lendário frontman, que faz com que o grande recinto se torne tão intimista como qualquer clube com lotação de 400 pessoas; fá-lo simplesmente com a sua presença sincera e com os olhares que troca com a emocionada plateia...)
Ao chegar à tenda nessa noite, ao lado do meu primo que segura orgulhosamete a set list do concerto, que tanto se bateu para conseguir, adormecemos com a sensação de que vai ser muito difícil superar estes quatro dias durante o resto das férias.
Pra semana, Algarve!

Tuesday, June 14, 2005

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

EUGÉNIO DE ANDRADE(1923-2005)

Sunday, June 12, 2005

Interlúdio

Desde sexta-feira que nas ruas de Lisboa não se vê vivalma. Não me lembro de alguma vez ter sentido esta cidade tão impessoal, tão fria, apesar do calor que nos apanhou de surpresa num destes dias e que veio, já se adivinha, para ficar...
A verdade é que, depois de finalizado o ano lectivo, dou por mim a caminhar pela minha rua - normalmente cheia de caras atarefadas e tactiurnas, tão preocupadas com a sua importantíssima, embora insignificante rotina - a uma sexta-feira, o primeiro dia do fim-de-semana prolongado, pelo meio-dia, assolado por uma sensação de estranheza, cuja causa apenas consegui descobrir após alguns longos segundos de caminhada solitária. Defacto, essas caras tinham desaparecido, o silêncio era de um conforto fantasmagórico, apenas cortado pelo ocasional veículo, cujo motor se conseguia ouvir longos momentos antes de entrar no meu campo de visão... Dei por mim a pensar: "porque será que me sinto tao desconcertado?" afinal, sempre adorei a calma de estar sozinho com os meus pensamentos; nada melhor do que ser o único acordado em casa, pela noite dentro, agarrado a uma boa BD, deitando o ocasional olhar pela janela, constatando que para além da minha, apenas uma ou outra janela brilha na escuridão...
A razão, só hoje, dias depois, me assolou. É que esta sensação, cuja sombra não me abandonou até a este momento, difere substâncialmente dos habituais interlúdios nocturnos que tanto me confortam e que servem de escape para as relações sociais e rotinas; esta advém do facto de ter acabado(esperemos...), nesta semana, mais um ciclo na minha vida; estes últimos três anos marcaram a minha personalidade de uma forma cuja profundidade ainda não pode ser percebida: entre dissabores e alegrias, conheci gente e cresci como pessoa de uma forma que só agora começo a perceber.
A partir daqui, enveredo por um caminho que sei não ser o meu, reconhecendo no entanto, que é o único possível, o menos mau para alguém que não sabe o que quer mas desconfia que, querendo tudo, na realidade não quer nada. Ao olhar para o que acabo de deixar para trás, apenas vejo caras e emoções que se desvanecerão com o tempo, até ao mútuo esquecimento; no futuro, algo incerto, prevejo a rotina que espero conseguir aguentar e o conformismo de uma vida confortável.
O vazio que encontro nas ruas não é mais do que o vazio que encontro em mim próprio, por pensar que podia ter vivido mais até aqui, não sabendo, no entanto como o fazer de futuro...